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Editorial

Brasil 2012/13: Desaceleração da atividade e inflação acima da meta em cenário global incerto

Redução do crescimento na maioria dos mercados em 2012

_ O crescimento da economia global diminuirá em 2012, sendo que a desaceleração não será tão sincronizada como no passado recente, com antagonismo entre o aperto fiscal e as condições de crédito bastante restritas por um lado e as políticas monetárias expansionistas por outro.

_ Haverá contração do PIB na Área do Euro no próximo ano, com estagnação na Alemanha e contração do PIB nos principais países da região. O risco de intensificação da crise financeira e de exacerbação da recessão tende a continuar alto por muitos trimestres. Nesse cenário, alguns países poderão ter dificuldade em promover ajustes fiscais e reformas que reduzam a percepção de risco soberano, aumentem a competitividade e contribuam para a retomada da atividade.

_ A recuperação da economia dos EUA em 2012 será contínua, porém gradual, impedindo a diminuição expressiva do desemprego e a rápida aceleração do crédito.

_ O crescimento na maioria dos emergentes recuará em 2012, em função das políticas mais contracionistas de 2011 e da incerteza global. Mesmo assim, a expansão dos emergentes continuará bem superior à média global, com a China sendo o principal determinante dessa expansão.

_ As condições de demanda e oferta sugerem que os preços de commodities não diminuirão muito nos próximos anos. Porém, a desaceleração da demanda na maioria das economias manterá baixa a procura por ativos de risco, impedindo altas expressivas desses preços. Esse efeito contribuirá para a redução da inflação na maioria dos mercados em 2012.

_ A redução da inflação em ambiente de desaceleração da atividade tende a manter os juros muito baixos na maioria dos países desenvolvidos. Os juros diminuirão na maior parte dos países emergentes.

_ Apesar da incerteza, os juros baixos nos países desenvolvidos manterão o influxo de capitais para investimentos em países emergentes, notadamente, China, Brasil, Rússia e Índia.

Influxo de divisas no país continuará significativo em 2012

_ O saldo comercial do Brasil diminuirá em 2012 por conta da menor alta dos preços de commodities e do crescimento global mais reduzido. Mesmo com a diminuição das despesas líquidas nas principais contas de serviços e rendas, a redução do superávit comercial elevará o déficit em transações correntes do país em 2012 e 2013.

_ O diferencial de juros ainda significativo continuará estimulando o setor privado a captar recursos no exterior, contribuindo para aumentar o endividamento externo. O risco associado à elevação da dívida externa continuará baixo, ainda mais em um ambiente de entrada líquida de divisas no país. Esse cenário é compatível com o acúmulo adicional de reservas internacionais em 2012, embora em magnitude inferior ao de 2011.

_ Em um ambiente de reduzida vulnerabilidade da economia doméstica, o cenário global continuará sendo o principal determinante da trajetória da taxa de câmbio. A alta incerteza global, a estabilidade dos preços de commodities e a ligeira redução do diferencial entre os juros domésticos e externos são compatíveis com taxa de câmbio relativamente estável em 2012. Uma eventual tendência de contínua apreciação cambial elevaria a probabilidade de o governo e a autoridade monetária, assim como no fim de 2010 e em 2011, adotarem novas medidas de restrição à entrada de divisas no país.

Baixo crescimento do PIB em 2012, com retomada em 2013

_ O crescimento do PIB em 2012 será baixo e inferior às nossas estimativas de crescimento potencial. O hiato do produto tende a permanecer aberto nos próximos anos. O perfil da expansão em 2011, com acomodação da economia no segundo semestre, torna improvável que o crescimento em 2012 seja expressivo. O crescimento do PIB em 2013 será superior ao de 2012 como resultado de um cenário global mais favorável e das medidas de estímulo à economia doméstica que serão, provavelmente, implementadas em 2012.

_ A demanda doméstica continuará sendo o principal determinante do crescimento nos próximos anos. Apesar da sua significativa desaceleração em 2011, os investimentos crescerão acima do PIB em 2012 e 2013, elevando a taxa de investimento do país. A contribuição da demanda externa líquida (exportações menos importações) para o crescimento do PIB continuará negativa.

_ Mesmo com um menor crescimento do PIB em 2012, o risco de deterioração do mercado de trabalho é baixo. A taxa de desemprego tende a recuar em 2012 e 2013, em um contexto de baixa expansão da força de trabalho. Os salários reais aumentarão, em particular em 2012, com contribuição advinda do forte reajuste do salário mínimo em janeiro.

_ O crédito bancário crescerá mais moderadamente em 2012 e 2013. O aumento dos empréstimos bancários será concentrado nos financiamentos de prazos mais longos, em particular, nos financiamentos imobiliários e no crédito do BNDES para investimentos.

Corte de juros, com inflação declinante, mas ainda acima da meta

_ Após vários meses acima do limite superior da meta, a inflação ao consumidor acumulada em 12 meses diminuirá nos primeiro e segundo trimestres de 2012, em parte devido à elevada base de comparação do início de 2011.

_ A inflação IPCA em 2012 e 2013 será inferior aos resultados de 2010 e 2011, em função da menor alta dos preços de commodities. Mesmo assim, a inflação IPCA continuará acima do centro da meta.

_ Mesmo com o menor crescimento da atividade em 2012, a persistência da inflação permanecerá elevada no próximo ano. Em um cenário de ausência de choques de oferta, a inflação de alimentos em 2012 será, provavelmente, inferior à de 2011. Entretanto, permanecerá elevada a incerteza sobre a dinâmica dos preços de alimentos in natura e de commodities. A inflação de administrados também será mais baixa em 2012, devido a menores reajustes dos preços de alguns itens, em particular ônibus urbanos e energia elétrica. A relativa estabilidade da taxa de câmbio e o crescimento moderado da economia sugerem que a inflação de bens industriais em 2012 não aumentará frente à alta de 2011.

_ O ciclo de afrouxamento monetário perdurará, provavelmente, até o segundo trimestre de 2012 em um cenário de: (i) declínio da inflação acumulada em 12 meses; (ii) baixo crescimento doméstico; (iii) medidas de contingenciamento fiscal para o cumprimento da meta de superávit primário em 2012; (iv) menor expansão do PIB global; e (v) política monetária expansionista na maioria das economias.

_ Apesar da nossa expectativa de afrouxamento monetário durante grande parte do primeiro semestre de 2012, os juros reais no Brasil continuarão bem superiores aos das demais economias.

Cumprimento da meta fiscal em 2012 e 2013

_ Apesar da nossa expectativa de cumprimento da meta de superávit primário, sem utilização da cláusula de desconto dos investimentos do PAC, a proposta de orçamento anual da União considera superávit primário bem inferior à meta integral em 2012. Assim, o cumprimento da meta fiscal integral em 2012 exigirá um contingenciamento de despesas, no início do ano, próximo daquele implementado em 2011.

_ O cumprimento da meta integral de superávit primário será dificultado por diversos fatores, entre os quais: o menor crescimento doméstico e a provável desaceleração da arrecadação federal; a vontade política de acelerar os investimentos públicos; o expressivo reajuste do salário mínimo no início do próximo ano; e a campanha salarial do funcionalismo público para compensar o declínio dos seus salários reais em 2011.

_ A dívida líquida do setor público continuará diminuindo como proporção do PIB nos próximos anos. A vulnerabilidade fiscal do país permanecerá baixa, principalmente quando comparada com a de outros países, notadamente os desenvolvidos.

_ As eleições municipais de 2012 reforçarão o crescimento dos partidos da base de apoio do governo federal. A oposição ao governo no Congresso diminuirá, em função da migração de diversos parlamentares para um partido recém-criado que tende a se alinhar mais ao Governo federal. Mesmo com a menor oposição no Congresso, a probabilidade de aprovação de medidas muito relevantes permanecerá baixa, em um ambiente de menor atividade parlamentar no período pré-eleitoral.

Expansão do crédito imobiliário pode exigir corte de compulsórios

_ A caderneta de poupança do SBPE está sujeita ao recolhimento de depósitos compulsórios de 20% e adicionais 10% de exigibilidade. A oferta de recursos para o crédito habitacional responde por 65% dos depósitos e os restantes 5% são de livre discricionariedade dos bancos.

_ Uma alternativa para permitir que a oferta de crédito habitacional no âmbito do SBPE continue elevada no médio prazo seria reduzir os depósitos compulsórios sobre a caderneta de poupança.

_ Os compulsórios e as exigibilidades que incidem sobre a poupança direcionada para a habitação representavam 39% da oferta de recursos para o crédito habitacional em julho de 2011.